Redação com linguagem rebuscada zera na Fuvest e candidato aciona a Justiça contra a USP

28 de março de 2026

Uma redação marcada pelo uso de vocabulário sofisticado e referências eruditas terminou com nota zero na segunda fase da Fuvest 2026. O autor do texto, o estudante Luis Henrique Etechebere Bessa, de 18 anos, decidiu recorrer à Justiça após ser eliminado do processo seletivo da Universidade de São Paulo (USP).

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O candidato disputava uma vaga no curso de Direito e afirma não ter recebido uma explicação detalhada sobre a anulação da redação. Segundo ele, a resposta enviada pela instituição foi genérica. Diante disso, com apoio da mãe — que é advogada —, entrou com um mandado de segurança solicitando esclarecimentos formais. “Só queria entender minha nota”, declarou.

A redação chamou atenção pelo estilo extremamente rebuscado. Logo na abertura, o estudante escreveu: “Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira…”, dando o tom de um texto repleto de termos incomuns e citações de pensadores como Ferdinand de Saussure e Pierre Bourdieu.

O que diz a Fuvest

Em nota, a Fuvest informou que o candidato foi eliminado por não atender ao tema proposto: “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”. De acordo com a banca, não houve demonstração clara de compreensão da proposta, o que comprometeu a coerência e a progressão do texto.

A instituição também destacou que a redação passou por múltiplas correções independentes — mais de três avaliações cegas — e reforçou que não há possibilidade de revisão da nota, já que o processo conta com uma banca composta por até quatro avaliadores.

Avaliação de especialistas

Professores de cursinhos pré-vestibulares ouvidos pela reportagem concordaram com a atribuição da nota zero. Para eles, o principal problema não foi apenas o vocabulário complexo, mas a falta de clareza na construção das ideias.

Segundo os especialistas, o texto apresenta:

  • Dificuldade de compreensão devido a construções sintáticas excessivamente elaboradas
  • Falta de conexão direta com o tema, com ideias que não se articulam de forma clara
  • Excesso de citações e conceitos, mais voltados à demonstração de erudição do que à defesa de uma tese

Na avaliação dos professores, o estudante priorizou referências e termos sofisticados, mas deixou em segundo plano a argumentação — elemento central em uma redação dissertativa.

Repercussão nas redes

O caso ganhou visibilidade após o próprio candidato comentar o episódio nas redes sociais. No entanto, ele acabou apagando as publicações depois de receber uma série de críticas e comentários irônicos sobre o estilo adotado no texto.

Apesar disso, o estudante defende sua forma de escrever. Segundo ele, sempre utilizou um vocabulário mais formal e nunca havia sido penalizado por isso. Ainda assim, reconhece que o texto poderia ter sido mais aprofundado.

Investigação segue sem resposta final

Até o momento, o candidato aguarda retorno oficial da reitoria da USP sobre o pedido judicial. O caso reacende o debate sobre os critérios de correção em vestibulares e os limites entre sofisticação linguística e clareza na comunicação de ideias.

Redação completa de Luis

Abaixo, veja a íntegra do texto:

Intentona pela Reconstituição da Interioridade

Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito. Djaimilia de Almeida concebe, em A Visão das Plantas, valer-se a epísteme lírico-narrativa de concepções hermenêutico-historiográficas, as quais decorrem da dialética antagônica e maquiavélica ao postularem a teleologia hodierna. Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo. Entretanto, à medida em que impera a dinamicidade, fragilizam-se axiomas em difusas postulações. Nesse ínterim, ressoa o sofrer recôndito na fragmentação identitária ao se concernir ao perdão – significado – múltiplos significantes: o condicionamento e a limitação, seja em razão da violência simbólica ou da tecnocracia.

Nessa vereda, sobrepuja-se a subjetividade ao “modus vivendi” da superestrutura cívico-identitária. Articula a dialética bourdiana – de Pierre Bourdieu – a internalização de signos culturais, fundamentados por efemérides violentas, a partir da impotência reflexiva inerente ao sujeito-interlocutor, o qual se resigna à unidimensionalidade distópica que o cerca. Dessa forma, transfigura-se a universalidade associada ao imperativo categórico no perdão condicionado: busca incessante por relegar a outrem o esvaziamento eudaimônico da individualidade esvaziada.

Ademais, nota-se haver a instrumentalização da razão a partir do Antropo-tecno-ceno – era em que ocorre a comodificação cultural a partir do uso de emergentes adventos tecnológicos. Nesse ínterim, Michael Sandel postula ser promovida pela tecnocracia a associação de concepções desenvolvimentistas à égide capitalista, ocasionando a negligência da seguridade social. Assim, desnuda-se o perdão limitado como sendo uma intentona à valorização do indivíduo cujo “status quo” encontra-se invisibilizado, uma vez que ocorre a busca mercadológica pelo perdão.

Diante do exposto, revela-se a tendência, no espectro contemporâneo, à fragmentação da “psique” coletiva, sendo o “perdão” a elucidação de sua fenomenologia. Nesse sentido, é diminuída a grandiloquência condoreira pela tecnocracia e pela violência simbólica, sendo o sofrer recôndito o seu suplício, em distintos significantes.

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