Polilaminina, que já possibilitou recuperação parcial de movimentos em pacientes tetraplégicos, manteve apenas registro nacional

19 de fevereiro de 2026

Cortes de verbas levaram Brasil a perder patente internacional de medicamento experimental para lesões medulares, diz pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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A professora Dra. Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou que o Brasil perdeu a patente internacional da polilaminina — medicamento experimental voltado ao tratamento de lesões medulares — após cortes orçamentários registrados entre 2015 e 2016.

A declaração foi feita em entrevista ao programa Conversas com Hildgard Angel, da TV 247. Segundo a pesquisadora, a falta de recursos durante o período de transição entre os governos de Dilma Rousseff e Michel Temer inviabilizou o pagamento das taxas necessárias para manter o registro da tecnologia fora do país.

“Os recursos da UFRJ foram cortados em 2015 e 2016, e não havia dinheiro para pagar a patente internacional”, afirmou.

De acordo com Tatiana, a ausência de pagamento das anuidades resultou na perda definitiva da proteção no exterior. “A patente internacional não foi concedida porque a UFRJ teve um corte de recursos. Então parou de pagar as patentes internacionais e nós perdemos tudo e ficamos só com a nacional, que eu paguei do meu bolso por um ano para poder não perder”, declarou.


Patente nacional foi mantida com recursos próprios

A pesquisadora revelou que precisou arcar pessoalmente com os custos para evitar a perda do registro no Brasil. A patente nacional foi concedida em 2025, após 18 anos do pedido inicial, feito em 2007, quando os estudos ainda estavam em fase preliminar.

“Nós fizemos um pedido de patente em 2007 porque entendíamos que poderia virar um medicamento”, explicou.

Ela destacou, porém, que o tempo de vigência é limitado. “Uma patente dura 20 anos. A internacional foi perdida e nunca mais se recupera. Com isso, poderão copiar à vontade no exterior”, afirmou.

Para a cientista, a perda da proteção internacional representa prejuízo para a ciência brasileira, já que a tecnologia é resultado de décadas de pesquisa desenvolvida no país e poderia gerar reconhecimento científico e retorno financeiro à universidade.

“Esses cortes de gastos têm consequências”, alertou.


Substância apresenta resultados promissores

A polilaminina é uma proteína experimental criada para estimular a reconexão de neurônios danificados na medula espinhal. Resultados preliminares indicam que o tratamento possibilitou a seis pacientes tetraplégicos a retomada parcial de movimentos.

A substância é produzida a partir da laminina, proteína extraída de placentas humanas, e busca recriar condições semelhantes às do desenvolvimento embrionário para favorecer o crescimento neural. Lesões medulares figuram entre os maiores desafios da medicina, já que o sistema nervoso apresenta capacidade limitada de regeneração.

Estima-se que mais de 15 milhões de pessoas no mundo convivam com algum tipo de lesão medular.


Mais de duas décadas de pesquisa

O projeto é resultado de aproximadamente 25 anos de estudos coordenados por Tatiana, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ.

Desde 2021, a iniciativa conta com parceria do Laboratório Cristália, responsável por colaborar no desenvolvimento e nos testes clínicos.

Em janeiro, a polilaminina entrou na fase 1 de testes clínicos, etapa destinada a avaliar a segurança e os primeiros sinais de eficácia em pacientes. Atualmente, a aplicação é feita por injeção direta na medula espinhal, embora o formato final do tratamento ainda esteja em estudo.

A fase 1 deve durar pelo menos seis meses. Já as fases 2 e 3, necessárias para comprovar eficácia e segurança em maior escala, podem levar vários anos até eventual aprovação regulatória.

Apesar dos desafios orçamentários e da perda da patente internacional, a trajetória da polilaminina é considerada exemplo de inovação científica nacional, fruto da cooperação entre universidade pública e indústria farmacêutica na busca por uma terapia inédita para lesões medulares.

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