A liquidação extrajudicial do Will Bank, determinada pelo Banco Central, aprofundou a crise no grupo financeiro ligado ao empresário Daniel Vorcaro. Desde novembro, sete instituições associadas ao conglomerado, incluindo o Banco Master, já foram encerradas.
O caso mais sensível, no entanto, é o do banco digital, que deixou milhões de clientes com o dinheiro bloqueado e sem prazo definido para reembolso. A instituição afirmava ter cerca de 12 milhões de usuários, sendo 60% concentrados no Nordeste, principalmente em cidades de pequeno porte.
Dinheiro para despesas básicas
Clientes ouvidos pela reportagem relatam que os valores depositados seriam usados para despesas essenciais, como alimentação, aluguel, medicamentos e contas de luz. Sem acesso ao saldo, muitos temem ficar inadimplentes.
O servidor público Felipe Cândido, de 50 anos, é um dos afetados. Após acompanhar a esposa em tratamento contra câncer de mama — ela morreu no início deste ano —, ele precisou se afastar do trabalho e viu a renda cair drasticamente. Pai de quatro filhos, entre eles gêmeas de 9 anos, e avô de uma menina de 2, Felipe depositou cerca de R$ 6 mil no Will Bank em janeiro para pagar a mudança de casa e a matrícula escolar de uma das filhas.
Quatro dias depois, o Banco Central decretou a liquidação da instituição. Como o valor ultrapassa R$ 1 mil, ele não foi incluído na antecipação feita pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e segue sem acesso ao dinheiro.
“Estou com uma extensão ligada na casa da vizinha. Daqui sai energia para a geladeira, a televisão e o ventilador das crianças. Não tem como ficar sem luz. Daqui a pouco não vamos conseguir comprar comida. O dinheiro está todo sequestrado”, relatou.
Deise Juliana, também de 50 anos e desempregada, usava a conta digital para guardar o dinheiro obtido com a venda de salgados e sacolés. “Era pouco o que eu tinha na conta, mas era meu. Para minha surpresa, quando abri o aplicativo, apareceu a mensagem de liquidação”, contou. Ela estava entre os correntistas com saldo de até R$ 1 mil que receberam antecipação do FGC.
Como será o reembolso
O ressarcimento será dividido em duas frentes. Investidores que aplicaram em CDBs, LCIs e LCAs estão cobertos pelo FGC, que funciona como uma espécie de seguro para depósitos de até R$ 250 mil por instituição financeira. O fundo estima desembolsar cerca de R$ 6,3 bilhões no caso do Will Bank.
Segundo o FGC, os pagamentos devem começar entre 30 e 60 dias após o envio da lista oficial de credores pelo liquidante nomeado pelo Banco Central. O pedido é feito digitalmente — pelo aplicativo no caso de pessoas físicas — e, após validação, o valor é depositado em até 48 horas úteis.
Já os clientes que utilizavam contas de pagamento — modalidade oferecida por fintechs e instituições sem licença bancária — não contam com a cobertura do FGC. Pela legislação, esses recursos devem ficar separados do patrimônio da instituição e ser devolvidos integralmente aos titulares.
Na prática, porém, o reembolso depende da conclusão da lista de credores e da conferência dos saldos, processo que ainda não foi finalizado e não tem prazo definido.
O que é o Raet
Desde novembro de 2025, o Will Bank operava sob Regime Especial de Administração Temporária (Raet), medida adotada pelo Banco Central quando assume provisoriamente o controle de uma instituição para tentar viabilizar sua recuperação ou venda.
Como não houve êxito na busca por novos investidores e a situação financeira se agravou, o BC considerou inevitável a liquidação extrajudicial.
Dívidas continuam válidas
Apesar da liquidação, dívidas já constituídas permanecem ativas. Parcelas de empréstimos e faturas de cartão seguem sendo cobradas normalmente, com possibilidade de incidência de juros e inclusão do nome em cadastros de inadimplentes.
O aplicativo do banco ainda permite consulta de saldos e valores a pagar, mas operações como transferências, PIX e pagamentos estão bloqueadas. As chaves PIX vinculadas à instituição foram desativadas.
Especialistas recomendam que os clientes guardem extratos, comprovantes de saldo e registros de movimentações na data da liquidação, além de acompanhar comunicados oficiais do Banco Central, do liquidante e do FGC.
Em situações de urgência, como impossibilidade de custear despesas básicas, há a possibilidade de recorrer à Justiça para tentar acelerar a restituição dos valores, especialmente em casos de demora excessiva no processo de liquidação.






